"Fui absolutamente rendida pelo poder das relações virtuais. Acredito que é possível conhecer alguém por e-mail, se apaixonar por e-mail, odiar por e-mail, tudo isso sem jamais ter visto a pessoa. As palavras escritas no computador podem muito. Mas nem sempre enxergam a verdade.
São sete horas de uma manhã chuvosa. Você não dormiu bem à
noite. Põe pra tocar um som instrumental que deixa suas emoções à flor da pele.
Vai para o computador e começa a escrever para alguém especial as coisas mais
íntimas que lhe passam no coração. Chora. Escreve. Olha para a chuva. Escreve
mais um pouco. Envia.
São onze horas da noite deste mesmo dia. O destinatário da
sua mensagem está dando uma festa. Todo mundo fala alto, ri muito, rola a maior
sonzeira. Ele pega uma cerveja e dá uma escapada até o computador. Abre o
correio. Está lá a mensagem. Um texto longo que ele lê com pressa. Destaca
algumas palavras: "a saudade é tanta... sozinha demais... dividir o que
sinto..." Papo brabo. Responderá amanhã. Deleta.
Alguém pode escrever com raiva, escrever com dor, escrever
com ironia, escrever com dificuldade, escrever debochando, escrever apressado,
escrever na obrigação, escrever com segundas intenções. Nada disso chegará no
outro lado da tela: a pressa, a hesitação, a tristeza. As palavras chegarão
desacompanhadas. Será preciso confiar no talento do remetente em passar emoção
junto de cada frase. Como pouquíssimas pessoas têm esse dom, uma mensagem
sensível poderá ser confundida com secura, tudo porque faltou um par de olhos, faltou
um tom de voz.
Se você passou a desprezar alguém, pode escrever "não
quero mais te ver". Se você ama muito alguém, mas a falta de sintonia lhe
vem machucando, pode escrever "não quero mais te ver".
Uma mesma frase e duas mensagens diferentes. Palavras são
apenas resumos dos nossos sentimentos profundos, sentimentos que para serem
explanados precisam mais do que um sujeito, um verbo e um predicado. Precisam
de toque, visão, audição. Amor virtual é legal, mas o teclado ainda não dá
conta de certas sutilezas."
De Martha Medeiros.
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